sexta-feira, 15 de março de 2013

Metáforas da Razão

No momento em que apresenta ao leitor a segunda parte da Crítica da Razão Pura, chamada de Doutrina Transcendental do Método, Kant compara "o conjunto de todo o conhecimento da razão pura e especulativa" (KrV A707/B735) a um edifício, para o qual a primeira parte do texto, chamada de Doutrina Transcendental dos Elementos, forneceria um inventário completo dos recursos e materiais disponíveis para a construção. Sem ter em conta esse inventário, qualquer projeto metafísico correria o risco de conduzir a uma "confusão de línguas, que devia inevitavelmente dividir os operários sobre o plano a seguir" (KrV A707/B735), numa clara referência ao episódio bíblico da Torre de Babel. Essa referência, ao relativismo que conduz ao ceticismo, ao projeto...

Qual o lugar das hipóteses de pesquisa empírica na classificação dos juízos? São elas juízos sintéticos ou analíticos, a priori ou a posteriori? Do ponto de vista da filosofia transcendental, é possível qualificar as hipóteses de pesquisa em legítimas ou ilegítimas com relação ao âmbito da experiência possível? O que a filosofia transcendental tem a nos dizer sobre o teste de hipóteses e sobre o tipo de atitude epistêmica a se ter diante delas? A razão, que interroga a natureza como uma juíza, está também autorizada a fazer suposições sobre as respostas da ré? Ou não caberia levar tão longe essa metáfora?

Os conhecimentos produzidos pela razão pura não admitem o uso de hipóteses. Na filosofia prática, há o uso de postulados práticos, enquanto a Matemática e a Metafísica não necessitam nem devem valer-se de hipóteses para ampliar seus conhecimentos. Resta então o domínio dos conhecimentos da Filosofia da Natureza, como o único no qual o uso de hipóteses é admissível.

O valor das analogias do ponto de vista da filosofia transcendental. Hypothèse, supposition, analogie.

"Como não podemos formas o mínimo conceito da possibilidade da ligação dinâmica a priori, e as categorias do entendimento puro não servem para a encontrar, mas apenas para a compreender quando ela se encontra na experiência (...)" (A770/B 798). Kant se refere aqui às categorias dinâmicas e regulativas (substância, causalidade e comunidade).

Ideias da razão não explicam, mas ajudam a explicar.
As ideias da razão não explicam pois as hipóteses transcendentais formadas com elas desrespeitam as condições de possibilidade da experiência e, por isso, são "cegas", menos comprenssíveis do que aquilo que elas pretendem explicar. Portanto, as hipóteses transcendentais, formuladas com ideias da razão pura, são falsas explicações.
Apesar disso, as ideias da razão são necessárias para se elaborar hipóteses empíricas: pensar numa finalidade da natureza não me deixa desesperar diante da complexidade do real e me incita a continuar no esforço de construir sistemas teóricos que mostrem a ordem em meio ao aparente caos. Porém, a crença na existência de uma finalidade da natureza não pode ser demonstrada. Pensar na alma como uma substância simples ajuda-me a dar unidade sistemática às minhas análises sobre os poderes da mente. Porém, crer na existência da alma como substância simples é algo indemonstrável. A crítica da razão pura mostra, então, que, dados os limites da razão especulativa, não estamos racionalmente autorizados a crer na existência daquilo que é representado por uma ideia transcendente.

Todos os conceitos, puros ou empíricos, com exceção dos definidos pela Matemática, possuem uma riqueza semântica que sempre supera qualquer tentativa de defini-los. Por isso, a rigor, eles podem apenas ser expostos, mas não definidos. Chamarei a essa afirmação de Kant a tese da indefinição intrínseca dos conceitos não-matemáticos. Essa mesma tese é defendida, embora com argumentos e razões diferentes das de Kant, por Wittgenstein, Putnam e outros.

Por um lado, por serem semanticamente inesgotáveis, os conceitos não-construídos não podem ser definidos. Por outro lado, não há como esgotar a priori todas as possibilidades de ligação desses conceitos com outros da mesma espécie. Cabe à atividade científica procurar por essas ligações e identificá-las conceitualmente (seja com a invenção de um novo conceito/palavra, seja com o uso de um conceito já previamente conhecido). Nessas atividades de procura e identificação de novas relações conceituais, duas operações serão frequentemente realizadas: o uso de analogias e a produção de hipóteses.
O que Kant nos oferece? Caracterizações suficientemente precisas dessas operações; os limites que a Crítica da Razão Pura impõe no uso delas? As funções positivas (heurísticas e explicativas) desempenhadas pelas ideias da razão pura e pelas categorias na produção de analogias e hipóteses.
Se uma hipótese ou analogia não está de acordo com as condições de possibilidade da experiência, então se trata de uma falsa explicação potencial.

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